Theo já passou mais da metade da vida com uma coisa crescendo do lado do rosto. Começou pequena, mas já empurrou o olho dele pra baixo e mudou o formato da boca.
QUERO CONTRIBUIREm casa são três. Ele, a mãe, e o Bento, irmão de cinco anos que não fala e só deixa a mãe chegar perto.
A mãe é gari. Sai às quatro da manhã, varre a cidade, e volta correndo pra cuidar dos dois. O salário dá pra comida e pra luz. Nunca sobrou pra tratamento.
O Theo cresceu com um plano: no dia que fizesse dezoito, começar a trabalhar e tirar a mãe do caminhão de lixo.
Só que o rosto correu mais rápido que ele. Do jeito que tá agora, ninguém contrata.
Nos últimos meses piorou depressa. Cada semana agora conta.
Tem uma operação que pode parar isso e devolver o rosto que ele foi perdendo.
Equipe especializada, centro específico. O valor é mais alto do que a mãe dele consegue reunir em dez anos varrendo rua.
O medo dele não é a cara. É deixar a mãe carregando o Bento no colo sem mais ninguém em volta.
O Theo passou dezoito anos aprendendo a viver dentro desse rosto. Aprendeu de tudo, menos a desistir da mãe.
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